A web não é só o browser

Quando se fala com pessoas não muito familiarizadas com os termos da informática é comum vê-las se confundir a janela do navegador com o termo “internet”. É como se o a internet fosse um aplicativo, confunde-se o canal com uma das aplicações dele. Dessa forma, e-mail por exemplo acaba não sendo tratado como sendo internet. E-mail é e-mail, internet é internet.

São distorções ingênuas, que não causam mal algum. O mais perigoso é quando são os profissionais quem confundem as coisas.

Web 2.0, mas com desempenho de 1.0

Em minha humilde opinião, onde o conceito de web se distorce a ponto de prejudicar é justamente na cultura dos profissionais que trabalham com ela, os programadores, web designers e geradores de conteúdo em geral. Em tempos de Web 2.0, os profissionais continuam com vícios antigos, da década passada.

Conceitos como AJAX, tableless, mashups se propagam e a cada dia surge uma nova buzzword que promete ser a solução de todos os problemas. Mas restou mau um hábito da época da guerra dos browsers, do meio para o fim dos anos 90 – o de testar os sites em apenas em dois browsers e ignorar o resto.

Naquela época, era necessário testar nos dois principais, pois não havia padrão comum a seguir. O que funcionava em um não funcionava no outro, e quase não existiam concorrentes a esses dois. Se você acessava a internet, era pelo Netscape Navigator ou pelo Internet Explorer.

Por outro lado, alguns hábitos também se perderam. Quando comecei a aprender HTML, o cálculo do tempo de carregamento era necessário ao fazer um site. Se verificavam os tamanhos dos arquivos, tratávamos as imagens para ficarem menores, etc. Afinal, não existiam conexões rápidas como hoje.

Com a popularização das conexões de banda larga e a evolução dos computadores, cada vez menos as pessoas se preocupam em fazer sites leves e eficientes. Temos computadores cada vez mais rápidos para executar programas cada vez mais lentos.

A internet não se resume mais a Netscape e IE

A internet mudou bastante. E eu nem entrarei na questão da popularização do acesso pelas classes mais baixas.
Se antes era desprezível a parcela dos usuários que acessavam por browsers “alternativos”, hoje não é bem assim.

Ainda temos o Internet Explorer e o Firefox, que seria o descendente direto do Netscape. Mas temos também Safari, Opera e o recém lançado Chrome, que embora não tenham um market share tão grande quanto o do Internet Explorer, têm uma boa base de usuários considerável.

É difícil hoje ter que testar cada site, cada sistema em vários desses browsers. Mas a questão não é fazer sites para cada browser, mas fazer para todos os browsers. Quando se desenvolve usando os padrões do W3C você já começa fazendo certo, e qualquer browser que siga os padrões servirá. Sabemos que alguns browsers fogem dos padrões às vezes, mas isso passa a ser exceção, e se estiver fazendo certo terá que fazer poucas adaptações.

É também uma forte tendência o o uso de feeds RSS para acompanhamento de conteúdo. A maioria dos leitores habituais de sites os acompanha principalmente ou exclusivamente por feed RSS. Isso se deve à praticidade de não ter que verificar vários sites diariamente. Com os feeds você é avisado sempre que seus sites ou blogs favoritos são atualizados. Esses leitores raramente abrirão um browser para navegar em seu site. No entanto, são seus melhores leitores, pois são leitores recorrentes.

Você deve ter certeza que seu conteúdo sobreviverá à visualização em diferentes feeds RSS e a possíveis republicações de seu feed em sites agregadores de notícias. Essas são situações impossíveis de se testar e controlar, então a melhor solução é deixar seu conteúdo simples.

A internet não é mais exclusividade dos computadores

A web não é um território homogêneo, todos com os mesmos navegadores e conexões rápidas. Ainda temos conexões lentas, computadores antigos ou desatualizados. O acesso à internet em celulares, mini notebooks, videogames e outros dispositivos também é uma realidade hoje, e esses dispositivos também possuem restrições. Telas e teclados pequenos, e conectividade limitada são exemplos. Com isso, sites lentos ficam lentos, sites pesados ficam pesados e sites que requeiram recursos específicos, como Flash e Java simplesmente não funcionem.

Há empresas que se procupam em ter versões otimizadas para acesso em celulares. Claro que em alguns casos isso melhora a usabilidade por apresentar uma interface mais simples. Mas se essa abordagem for tomada para cada tipo de dispositivo, teremos um problema gigante na hora da manutenção – a quantidade de versões do mesmo site. Tal como na guerra dos browsers.

Na maioria dos casos, um site programado dentro dos padrões e sem firulas desnecessárias já ajuda muito. Em dispositivos móveis, pode ser a diferença entre funcionar ou não. Inclusive é possível criar folhas de estilo para dispositivos móveis, sem alterar o HTML.

Além da velocidade, o tamanho das páginas influencia também no custo – a maioria dos planos de internet móvel se baseia na quantidade de dados trafegados, o que faz com que o acesso ao seu site fique mais caro para o visitante.

Flash e Java – bom ou ruim?

Os dois. Ambos têm seu lugar. Junto com o Javascript abriram a possibilidade de programar comportamentos nas páginas web (mas sem seus problemas de compatibilidade). Com uma linguagem de marcação como HTML, você pode informar apenas o que as coisas são, mas com linguagens de programação você pode de fato mandar o computador fazer coisas.

À medida que mais computadores passaram a ser capazes de executar Flash, ele passou a ser mais usado sem medo. Mas criou-se o hábito de usar Flash (e em menor escala, applets Java) para montar as páginas em si, o que deveria ser feito em HTML. Menus começaram a ser feitos em Flash, e até mesmo sites inteiros começaram a ser feitos em Flash.

Conteúdo Flash ou Java são como programas rodando dentro do browser do usuário; certos recursos padrão não se aplicam. Em um site Flash por exemplo, não se consegue guardar uma página específica nos favoritos, modificar o tamanho da fonte ou usar recursos de acessibilidade (como leitores de tela para cegos).

E há de se lembrar novamente que a maioria dos dispositivos móveis e computadores que não possuam os plugins instalados (cada vez mais raros, mas eles existem) não serão capazes de executar arquivos Flash ou Java. Se o site inteiro ou uma parte muito importante como o menu utilizarem exclusivamente essa tecnologia, o acesso ao site fica impossível.

E o JavaScript?

Embora tenha seus próprios problemas de compatibilidade entre browsers, a execução de código JavaScript não depende da instalação de plugins no navegador. Ou ele suporta ou não suporta. Até alguns browsers para celulares já suportam JavaScript.

Como existem os que não suportam, deve-se tomar cuidado também, evitando substituir funções padrão do navegador por funções programadas em JavaScript. Caso isso ocorra, você poderá fazer uma coisa que funcionaria sem esforço parar de funcionar em um browser que não tenha suporte.

Um caso muito comum é substituir um link comum por um evento “onclick” redirecionando para a nova URL. Se o navegador não suportar JavaScript ou ocorrer um erro que faz o engine JavaScript parar, seus links param de funcionar junto. Mesmo o IE dá a opção de não executar mais JavaScript ao encontrar um erro.

A web não é mais exclusividade das pessoas

É estranho declarar uma coisa dessas em sã consciência.

Mecanismos de busca são muito importantes por conduzir tráfego para seu site. Mas diferente das pessoas, eles só entendem texto. E texto não é qualquer coisa que esteja desenhada em sua tela. Eles não entendem o que está escrito em uma imagem. É necessário que o mecanismo de busca entenda o que está escrito. Em outras palavras, o conteúdo deve estar em HTML.

Hoje o Google já indexa arquivos do Word, PDF e até mesmo Flash. Mas além de poder não ser entendido com tanta precisão, ainda se perde o contexto daquele arquivo no site, como uma página normal teria. Além disso existem outros mecanismos de busca que poderão simplesmente ignorar o que não entendem.

Aprecie com moderação

Se um site ou sistema é simples, então faça-o simples. Simples, mas sempre empenho em fazê-lo bem feito, afinal simplicidade não significa falta de capricho ou de recursos.

A mensagem que deve ficar não é a que devemos ignorar os novos recursos que são oferecidos. Podemos usar, mas precisamos antes saber mais a respeito, para que possamos saber onde sua aplicação melhora o produto e quais são as implicações de seu uso.

A experiência de navegação na internet de hoje não pode ser resumida a um universo finito e limitado de possibilidades, como 1995. Devemos nos esforçar para disponibilizar o conteúdo de forma que não coloquemos empecilhos ao seu acesso, já que nos é impossível controlar o tipo de experiência que o usuário terá a partir dele.

Para quem só tem um martelo, todo problema parece um prego. Mas temos uma caixa cheia de ferramentas, basta saber usar.

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One Comment

  1. Areta do Bem:

    Doug,

    O pior é quando a pessoa acha que “internet” é o IE(ca)!

    #prontofalei

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